quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O tolo e o sábio





















"O tolo que sabe que é tolo, nisso, pelo menos, é sábio. Mas o tolo que
pensa que é sábio, esse é realmente um tolo."

O sábio Saadi, nascido em Xiraz, caminhava por uma rua com seu discípulo, quando
viu um homem tentando fazer com que sua mula andasse.

Como o animal recusava-se a sair do lugar, o homem começou a insulta-lo
com as piores palavras que conhecia.

Então o sábio aproximou-se dele e calmamente falou:
- Não sejas tolo... o asno jamais aprenderá tua linguagem. O melhor será
que te acalmes, e aprendas a linguagem dele.

O homem não lhe deu ouvidos e continuou xingando o animal; o sábio
afastando-se, comentou com o discípulo:
- Antes de entrar numa briga com um asno, pensa bem na cena que
acabaste de ver.

Não é sábio discutirmos com alguém que ainda não esteja preparado para
as coisas simples da vida, como por exemplo compreender o grande amor
de Deus em todas as criaturas... é preciso saber calar para deixar um tolo
falar!!!


 Muslah-Al-Din Saadi

Trecho do poema "Jardim das rosas" , escrito no século XIII.

Saadi - Gulistan (O Jardim das Rosas)


Um rei injusto perguntou a um santo homem: "O que é melhor do que uma prece?" O santo homem respondeu: "Vossa Majestade ficar dormindo até o meio-dia, para que nesse intervalo não possa afligir os homens"
Dez daroeses podem dormir num tapete, mas dois reis não podem acomodar-se num reino todo
Se vós cortejais o ricos, não procureis contentamento.
O homem religioso que se sente vexado com uma ofensa, não passa ainda de um ribeiro raso.
Ninguém jamais reconheceu a sua própria ignorância, exceto aquele que, enquanto o outro está falando e não acabou de falar, começa a falar.
Se vós tiverdes uma perfeição e setenta falhas, vosso amante discernirá somente essa perfeição.
Não vos apresseis... Aprendei a deliberar. O cavalo árabe galopa a toda velocidade e logo se esgota; o camelo, com o seu passo firme, viaja noite e dia e chega ao fim da sua jornada.
Adquiri o saber, pois nenhuma confiança se pode depositar nas riquezas ou posses... Se um profissional perde sua fortuna ele não precisa lamentar-se, porque os seus conhecimentos constituem uma fonte de riqueza.
A severidade do mestre-escola é mais útil do que a indulgência do pai.
Se a inteligência fosse aniquilada da face da Terra, ninguém poderia dizer "eu sou ignorante".
A leveza de uma nós é sinal da sua vacuidade.

Sa'di (Musharrit ud-Din ibn Muslih ud-Din Abdala) - Gulistan (Jardim da Rosa) - publicado em 1258

O jardim das rosas


Gulistan ("O Jardim de Rosas") é uma das principais obras da literatura persa.
Escrito em 1259 E.C., é uma das dua obras primas do poeta persa Sadi, considerado um dos melhores poetas persas medieval.
O Gulistan é uma coleção de poemas e histórias, da mesma forma que um jardim de rosas é uma coleção de rosas. É comumente citado como uma fonte de sabedoria. A entrada do Salão das Nações Unidas tem a seguinte inscrição tirada do Gulistan.

Os seres humanos são parte de um todo,
Na criação de uma essência e alma.
Se um membro sofre dor,
Outros membros permanecerão inquietos.
Se você não tiver simpatia pela dor humana,
Você não pode reter o nome de humano.

domingo, 25 de outubro de 2009




















"Na madrugada...
O Amor batendo na porta que se encontrava fechada!
Toc! Toc! Toc!
- Quem é?
- És tu mesma!
E a porta foi-lhe aberta."

Jalal-ud-Din Rumi

quinta-feira, 22 de outubro de 2009






"Confia em Deus mas amarra o teu camelo"

Provérbio persa

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Linguagem dos Pássaros





Um grupo de pássaros desejava encontrar a seu rei; então pediram à poupa sábia (um pássaro com crista em forma de abano) que lhes ajudasse em sua busca. A poupa lhes disse que o rei que estão procurando se chama Simurgh (que significa em persa “Trinta Pássaros”) e que vive escondido na montanha de Kaf, porém é uma viajem muito difícil e perigosa. Os pássaros imploram à poupa que os guie. A poupa aceita e começa a ensinar a cada pássaro de acordo com seu nível e temperamento. Ela lhes diz que para alcançar o alto da montanha, necessitam atravessar cinco vales e dois desertos; quando tiverem passado o segundo deserto, entrarão no palácio do rei.
Os de vontade débil, temerosos da viagem, começam a por desculpas. O louro, que é egocêntrico e egoísta, diz que no lugar de ir em busca do rei, buscará o Santo Gral. O pavão real, a ave legendária do paraíso, exclama que tem sonhado que voltará ao céu e que vai esperar pacientemente esse dia. A pata, se lamenta porque sua vida depende de estar próxima da água e morreria se si separasse dela. A garça tem uma desculpa similar; não lhe é possível viajar longe do mar, porque seu amor pela água é tão grande que, embora permaneça sentado durante anos à sua margem, não tem ousado beber nem uma gota, se não o mar acabaria sem água. A coruja declara que prefere ficar e buscar as ruínas com a esperança de encontrar um tesouro algum dia. O rouxinol diz que não necessita viajar, porque está enamorado da rosa e este amor é suficiente para ele. Possui os segredos do amor que nem outra criatura tem; e com uma voz maravilhosa canta ao amor:
- Conheço os segredos do amor. Toda noite derramo meu canto de amor. A música mística da flauta se inspira em meu lamento, e sou eu quem faz desabrochar a rosa e comover os corações dos namorados. Ensino mistérios com minhas tristes notas, e quem me ouve se perde em êxtase. Ninguém conhece os meus segredos, unicamente a rosa. Tenho me esquecido de mim mesmo e só penso na rosa. Alcançar a Simurgh está acima de mim! O amor da rosa é suficiente para o rouxinol!
A poupa que escutou pacientemente responde ao rouxinol:
- Tu estás preocupado com a forma exterior das coisas, pelos prazeres de uma forma sedutora. O amor da rosa tem lançado espinhos a teu coração. Não importa quão grande seja a beleza da rosa, se desvanecerá em poucos dias; e o amor a algo tão passageiro só pode causar repulsa ao perfeito. Se a rosa te sorri é só para enxerte de dor, porque ela rir-se de ti a cada primavera. Abandona a rosa e seu quente calor.

“O que quer dizer Attar com esta simples conversação? Nós humanos temos o desejo de buscar a perfeição, mas muitas vezes tendemos a parar o processo tão logo detectamos o mais ligeiro sinal de progresso. Isto é especialmente certo nos aspirantes ao caminho espiritual: muitos buscadores estão encantados com as primeiras etapas do despertar e o confundem com a completa iluminação. Attar nos adverte de tais perigos: não devemos confundir o amor do imaginário com o amor do Real. Por esta razão, o rouxinol tem que abandonar seu enganoso apego pela rosa para buscar ao eterno Amado.”

A poupa deleita os pássaros com maravilhosas histórias daqueles que têm feito a perigosa viagem.
Depois de ter ouvido as histórias da poupa, os pássaros estão inspirados para começar sua viajem até o primeiro vale.
Entretanto, logo começam a ter problemas, e se dão conta de que o caminho vai ser mais difícil do que haviam imaginado. Alguns voltam a por desculpas. Um afirma que a poupa não é suficientemente sábia para conduzi-los. Outro se queixa que satanás lhe tem possuído e lhe está pondo as coisas difíceis. E outro expressa seu desejo de ter dinheiro e a comodidade de uma vida de luxo.
Finalmente, a poupa decide que a única forma para que os pássaros compreendam, é descrever-lhes os sete vales e desertos da viajem. O primeiro é o Vale da Busca. Aqui se busca a Verdade com inquietude, diz a poupa. Com constância, se busca um significado maior ao propósito da vida. Só um buscador com dedicação pode atravessar a salvo o primeiro vale e ir ao segundo, o Vale do Amor. Aqui se sente um desejo ilimitado de ver ao Rei Amado. Um fogo abrasador começa a crescer no coração e se faz devastador. O lugar é mais perigoso que o primeiro vale, porque há obstáculos no caminho para por a prova o amor. Entretanto esse mesmo amor impulsiona ao buscador sair do vale e ir até uma terra mais alta: o terceiro vale, o Vale do Conhecimento. Uma vez que se entra nesta terra, o coração se ilumina com a verdade. Se adquire aqui o conhecimento interior do Amado. Deste lugar o viajante continua a viajem ao Vale do Desapego, onde perde seus desejos de possessões mundanas. Não existe ataduras com o mundo material para o viajante que atravessa esse vale; liberado dos desejos agora o aspirante é completamente independente.
Cada novo lugar que o buscador encontra é mais perigoso que o anterior e deve ser explorado passo à passo, porque cada um contém suas próprias provas e dificuldades. Assim, cada encontro com uma terra diferente é uma experiência nova.
O quinto vale é o Vale da Unidade. O viajante experimenta nele que todos os seres são unos em essência, que toda variedade de idéias, experiências e criaturas da vida tem realmente uma só fonte.
O viajante chega ao Deserto do Medo. Então se esquece da existência de si mesmo e de todos os demais. Vê a luz, não com os olhos da mente, sim com os olhos do coração. A porta do divino tesouro, o segredo dos segredos, se abre. Nesta terra, o intelecto já não funciona. Aqui se pergunta ao viajante quem é e o que és, responde: “Não sei nada.”
Finalmente chega ao Deserto do Aniquilamento e da Morte. Neste ponto, o aspirante entende finalmente como uma gota se funde no oceano da unidade com o Amado. Tem encontrado o destino da viajem para encontrar ao rei.
Depois de ouvir a descrição da poupa sobre o que lhes espera, os pássaros se animam tanto que imediatamente continuam sua viajem.
No caminho alguns morrem pelo calor e se jogam no mar. Outros se cansam e não podem continuar; um grupo é caçado por animais selvagens e outros mais se distraem tanto pelo atrativo das terras que atravessam, que se perdem e ficam para trás. Só trinta alcançam seu destino: a montanha de Kaf.
No palácio real, o guarda da entrada trata cruelmente os trinta pássaros. Mas os pássaros, que têm passado o pior, são tolerantes e não se permitem sentir-se molestados por sua dureza. Finalmente, o servidor pessoal do rei sai e conduz os pássaros ao salão real. Ao entrar, os pássaros olham tudo assustados. Não sabem o que ocorre, porque no lugar de ver a Simurgh, “Trinta Pássaros”, tudo o que vêm é... Trinta Pássaros.
Finalmente compreendem que, olhando-se a si mesmos, têm encontrado ao rei, e que em sua busca do rei, têm encontrado a si mesmos.
Os que atravessam as sete cidades do amor se purificam. Quando chegam ao palácio real, encontram ao rei que se revela a seus corações.

"Fariduddin Attar"
(extraído do livro: História de la Tierra de los Sufíes)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Lenda Persa






Há uma lenda persa que fala a respeito de um rei que carecia muito de um servidor. Dois homens se apresentaram e o rei os contratou por um salário fixo.

Depois de alimentados, voltaram à presença do soberano para ouvirem a respeito de suas tarefas...A primeira ordem foi que cada um pegasse uma cesta, colocando-a ao lado do poço. Iriam, alternadamente, tirando a água do poço e despejando-a dentro da cesta. No final do dia, o Rei, pessoalmente, iria apreciar o trabalho deles.

Depois de cinco ou seis baldes de água tirados e jogados na cesta, um dos contratados falou:
- Afinal, qual é o valor deste serviço? Quando lançamos a água dentro da cesta, ela se escoa imediatamente!

O outro, entretanto, respondeu:
- O rei certamente conhece a utilidade do nosso trabalho. Ele sabe o valor dele, do contrário não teria nos contratado.

- Pois não vou gastar as minhas energias na execução de uma tarefa assim. Dizendo isso, deixou de lado seu balde e partiu.

O outro homem, pacientemente, continuou o trabalho. O poço continha muita água, mas, sem desanimar, ele foi repetindo a operação até que conseguiu esgotá-lo.

Olhando atentamente para o seu fundo forrado de lodo, ele viu que havia lá um objeto, que brilhava intensamente. Era um valioso anel de diamantes!... e pensou: O meu esforço teve sua utilidade. Foi útil e necessário!

Na hora marcada, chegou o rei e lá encontrou um dos contratados fiel às suas ordens. E sua recompensa foi grande.

Muitas vezes, ao longo da vida, deparamos com tarefas penosas para serem realizadas e caminhos dificeis a serem palmilhados.

Somos, por vezes, tentados a pensar que o sacrificio não compensa e uma forte tendência de abandonar tudo e tomar novo rumo tenta apoderar-se de nós.

Entretanto, quando dominamos o desânimo e nos enchemos de coragem para chegar ao fim da responsabilidade, sempre descobrimos uma compensação e nos levantamos prontos para um novo embate.

O desânimo tem sido a arma mais poderosa que o inimigo usa para nos desviar do plano e do caminho traçado por Deus para a nossa vida.