A aurora encheu de rosas a taça do Céu. No ar de cristal ecoa o canto do último rouxinol. O perfume do vinho é mais suave... Ó delícia!... E dizer-se que em momentos tais há insensatos que sonham com a glória e cuidam de honrarias! Tua cabeleira, ó minha bem-amada, é macia como a seda.
Omar Khayyam
Aurora! Felicidade e pureza! Um imenso rubi cintila em cada taça. Toma estes dois ramos de sândalo. Transforma o maior numa cítara e beija o outro, para que o seu perfume te embalsame.
Omar Khayyam
Todas as manhãs, o orvalho pesa sobre as tulipas, os jacintos e as violetas, até que o sol venha aliviá-los desse belo fardo. Todas as manhãs, sinto o coração mais pesado no meu peito, mas logo o teu olhar dissipa a minha tristeza.
Omar Khayyam
As flores do céu deixam cair as suas pétalas de ouro, e não sei por que o meu jardim ainda não está todo atapetado. Como o céu espalha as flores sobre a terra, eu encho a minha taça de um vinho cor de rosa!...
Omar Khayyam
Podes sondar a noite que nos cerca. Podes afundar pelo mistério adentro. Em vão! Ó Adão e Eva! Como deve ter sido amargo o vosso primeiro beijo, para que nos gerásseis tão desesperados!...
Omar Khayyam
Uma rosa dizia: "Sou a maravilha do universo. Será possível que um perfumista tenha coragem de fazer-me sofrer?" Um rouxinol cantou: "Um dia de felicidade prepara um ano de lágrimas."
Omar Khayyam
Olha! Escuta! Uma rosa treme ao sopro da brisa. E um rouxinol lhe entoa um canto apaixonado. Uma nuvem parou. Bebamos vinho. Esqueçamos que a brisa desfolhou a rosa, e levará o canto do rouxinol e a nuvem que nos dá neste momento uma sombra tão preciosa.
Omar Khayyam
Por que tanta suavidade, tanta ternura, no começo do nosso amor? Por que tantos carinhos, tantas delícias, depois? E...por que, hoje, o teu único prazer é dilacerar o meu coração? Por quê?
Omar Khayyam
A vida passa, qual rápida caravana! Toma as rédeas ao teu corcel, pára e surpreende o minuto de alegria... Linda rapariga, por que te afliges? Dá-me um pouco de vinho. A noite já vai acabar...
Omar Khayyam
Escuta a voz da Sabedoria, que te repete o dia inteiro: "A vida é breve e tu não és como as plantas que reverdecem depois de podadas."
Omar Khayyam
Um jardim, uma rapariga ondulosa, uma ânfora de vinho, o meu desejo e minha amargura: eis o meu Paraíso e o meu Inferno!... Quem sabe, porém, o que é o Céu, que é o Inferno!?
Omar Khayyam
As raízes do narciso, que balança à beira do riacho, brotaram dos lábios de uma mulher. Pisa muito de leve a relva macia! Quem sabe se ela não germinou nas cinzas de rostos que eram belos e brilhantes como tulipas vermelhas?
Omar Khayyam
A tulipa rubra nasce no campo regado outrora pelo sangue de um rei. A violeta brota do sinal de beleza que palpitava no rosto de um adolescente.
Omar Khayyam
O vento do Sul crestou a rosa a que o rouxinol entoava um hino. Devemos chorar o destino da rosa, ou o nosso? Quando a morte empalidecer nossas faces, outras rosas desabrocharão..
Omar Khayyam
Convence-te bem do seguinte: Um dia tua alma abandonará o teu corpo e serás arrastado para trás do véu que flutua entre o universo e o incognoscível. Enquanto esperas, cuida de ser feliz! Não sabes de onde vens. Não sabes para onde vais.
Omar Khayyam
Na primavera, gosto de sentar-me à orla de um campo florido. Bebo o vinho que me oferece uma linda rapariga e não cuido de minha salvação. Se tal pensamento me ocupasse, eu valeria menos que um pobre cão.
Omar Khayyam
Deixemo-nos de palavras vãs. Levanta-te e dá-me um pouco de vinho. Esta noite tua boca é a mais bela rosa do mundo e basta para todos os meus desejos. Dá-me vinho. Que ele seja corado como as tuas faces, e o meu remorso será leve como as tuas tranças.
Omar Khayyam
A brisa da primavera renova as rosas e, na sombra azul do jardim, acaricia o rosto de minha amada. A despeito da ventura que já gozei, sou tão feliz hoje que não me lembro de ontem: esqueço o passado... É tão imperioso o prazer deste momento...
Omar Khayyam
"Além da Terra, além do Infinito, eu procurava em vão o Céu e o Inferno. Mas uma voz me disse: "O Céu e o Inferno estão em ti mesmo."
Omar Khayyam
Procura ser feliz ainda hoje, pois não sabes o que te reserva o dia de amanhã. Toma uma urna cheia de vinho, senta-te ao clarão do luar e monologa: "Talvez amanhã a lua me procure em vão."
Omar Khayyam
DESPERTE! durante a manhã na tigela da noite Ele arremessou a pedra que põe as estrelas em vôo: E oh! O Caçador do Leste pegou A Torre do Sultão num Laço de Luz.
Certa noite, o Mestre Bahaudin estava sentado, após o jantar, rodeado de um grande número de recém-chegados, jovens e velhos, todos desejosos de aprender.
O silêncio se fez, e o Mestre pediu que lhe fizessem uma pergunta:
- Qual é o obstáculo maior para o aprendizado e para o ensinamento do Caminho? - perguntou alguém.
O Mestre respondeu:
- As pessoas julgam segundo as aparências. Elas são atraídas pelos sermões, os barulhos e os rumores, e por tudo aquilo que os excita - como as abelhas pelo perfume das flores.
- Então como devem as pessoas se aproximarem da sabedoria, ou as abelhas das flores?
- O ser humano se aproxima da sabedoria pelos rumores e barulhos, os sermões e os livros, e em estado de excitação. Após se terem assim aproximado, eles ficam na proximidade mas somente para pedir ainda a mesma coisa e não por aquilo que a sabedoria pode dar - aquilo pelo qual ela ali está.
É o perfume que guia a abelha até a flor, mas, tendo chegado à proximidade da rosa, ela não se contenta em pedir mais perfume: ela se dispõe a recolher o pólen. Este néctar que ela deverá colher, é o equivalente da realidade da sabedoria da qual os rumores e imaginações são, de certa forma, o perfume.
A humanidade só conta com um pequeno número de “verdadeiras abelhas”. Enquanto que quase todas as abelhas são abelhas por sua aptidão para recolher o néctar, a maioria dos seres humanos não são ainda seres humanos - seres preparados para perceber aquilo que eles foram criados para perceber.
E o Mestre falou:
- Que aqueles que vieram aqui a Quasr al-Arifin, por causa do que leram, se levantem.
Muitos se levantaram.
- Que aqueles que chegaram até nós porque escutaram falar de nós, se levantem igualmente.
Foi ainda maior o número dos que se levantaram.
- Aqueles que ficaram sentados - retomou Bahaudin - estes vieram por que perceberam nossa presença e nossa verdade de uma outra forma, de maneira sutil.
- Entre aqueles que estão de pé, velhos ou jovens, há muitos que só querem ser sempre estimulados, cada vez mais, em seus sentimentos e procuram a excitação ou a tranqüilidade. Antes que eles possam aprender aquilo que não podem experimentar em outro lugar, eles deverão pedir o conhecimento e não a diversão e o espetáculo.
Depois ele disse o seguinte:
- Existem aqueles que são atraídos pela reputação de um mestre, e eles vêm lhe ver desejosos de experimentar ainda mais intensamente a mesma sensação. Quando este morre, eles visitam sua tumba, sempre pela mesma razão.
Enquanto suas aspirações não tiverem sido transformadas, como por alquimia, eles não encontrarão a verdade.
Depois há aqueles que visitam um mestre não porque eles escutaram falar dele como um conselheiro sábio e experimentado ou, se ele está morto, porque desejam ver sua tumba, mas por que eles reconhecem sua realidade profunda. Um dia virá onde cada um possuirá esta faculdade.
Então Bahaudin, o Desenhista, diz:
- Mas, enquanto se espera, o trabalho que será finalmente realizado através das gerações deverá ser realizado dentro de um mesmo indivíduo. Para tornar-se um Moisés, se terá que transcender o Faraó. O homem que é atraído pela reputação deverá tornar-se, de uma certa maneira, um outro homem. Ele deverá tornar-se aquele que habita nas proximidades da sabedoria por que sentiu sua realidade profunda.
Este é o objetivo deste Trabalho, antes que ele possa aprender. Enquanto não aprender isso, ele é só um dervixe. O dervixe deseja. O sufi percebe.